And I don't want the world to see me,
'cause I don't think that they'd understand. When everything's made to be broken
I just want you to know who I am.
"Deixe que eu te diga que a liberdade não existe, não como deveria ser. o quão livre eu sou ao seguir essas tantas regras? o quão escrava sou das vitrines, dos anúncios, do meu próprio ego? estou presa em uma cela tão grande que chego a me sentir dona. estou grudada nos meus medos, mágoas, apelos. meus sonhos são tão medíocres quanto o resto que chamo de realidade. do que adianta sonhar se o céu por onde passo tem tantos limites? do que adianta pôr os pés no chão se o lugar onde estou não é na verdade onde eu queria estar? não sou livre e minhas escolhas vão do A ao Z. um alfabeto é pouco para quem, de verdade, só precisa de nove letras. e não a tenho e ela é quase rara, ou melhor, ela está dentro de mim. presa, escondida atrás de ressentimentos, arrependimentos, culpas. deixe que eu te diga que o que eu sinto e o que vejo é o reflexo de milhões de pessoas que vão de porto em porto esbanjando algo que não têm. ela faz com que eu me lembre de… deixe-me pensar que sou forte o bastante para contar o quê. acho que vai chover amanhã, ainda bem."
paris, 1992   
Thursday, May 16, 2013

 

“Vejo o céu em recortes por entre os prédios, por entre as árvores urbanas quase artificiais. Vejo-o triste, num chorar zangado, mas ainda assim tímido e abandonado. Quem é que olha para o céu? Se olha, é pra falar do tempo. “O tempo está lindo!”, e quão lindo é esse tempo que acaba com a gente? Esqueçam-se do tempo! Façam-se céu! O céu é belo, o tempo só passa.”

Giovanna Zambianchi

Thursday, May 9, 2013

Episódio das quatro da tarde, quarta feira, Avenida Paulista pra variar

flor—de—papel:

Uma criança de olhos azuis tropeçou na minha saia. Poderiam ser pretos os olhos. Castanhos, verdes. Mas eram azuis. Tropeçou na saia longa que eu mesma tropeçaria se não me cuidasse. E eu nunca me cuido. A mãe correndo atrás pegou-a pelo braço, bateu nos joelhos e perguntou se doeu. Ela riu. Se pôs de pé, de pé sobre a barra da minha saia, rindo e me olhando com o par de olhos azuis e disse “saia bonita, moça”. E continuo correndo. Correndo daquele jeito desengonçado como só as crianças podem correr. Corria para tropeçar no próximo pedregulho solto na calçada ou no cachorro pequeno pra mim e grande pra ela. Corria sem medo do tombo, sem medo da dor, sem medo de ralar os joelhos ou a palma da mão e sem dó de pôr a mãe louca a correr atrás dela. A mãe que de noite beijaria-lhe a testa e faria cócegas na sua barriga lisa, daria boa noite e apagaria a luz. Uma criança tropeça em minha saia e eu finalmente solto o ar dos pulmões, como se tivesse nadado e não andado até aqui. Mercúrio em Touro, Sol e Plutão em trígono. Tudo está bem de novo. 

Daniella Leal

 
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