“Vejo o céu em recortes por entre os prédios, por entre as árvores urbanas quase artificiais. Vejo-o triste, num chorar zangado, mas ainda assim tímido e abandonado. Quem é que olha para o céu? Se olha, é pra falar do tempo. “O tempo está lindo!”, e quão lindo é esse tempo que acaba com a gente? Esqueçam-se do tempo! Façam-se céu! O céu é belo, o tempo só passa.”
Giovanna Zambianchi
Uma criança de olhos azuis tropeçou na minha saia. Poderiam ser pretos os olhos. Castanhos, verdes. Mas eram azuis. Tropeçou na saia longa que eu mesma tropeçaria se não me cuidasse. E eu nunca me cuido. A mãe correndo atrás pegou-a pelo braço, bateu nos joelhos e perguntou se doeu. Ela riu. Se pôs de pé, de pé sobre a barra da minha saia, rindo e me olhando com o par de olhos azuis e disse “saia bonita, moça”. E continuo correndo. Correndo daquele jeito desengonçado como só as crianças podem correr. Corria para tropeçar no próximo pedregulho solto na calçada ou no cachorro pequeno pra mim e grande pra ela. Corria sem medo do tombo, sem medo da dor, sem medo de ralar os joelhos ou a palma da mão e sem dó de pôr a mãe louca a correr atrás dela. A mãe que de noite beijaria-lhe a testa e faria cócegas na sua barriga lisa, daria boa noite e apagaria a luz. Uma criança tropeça em minha saia e eu finalmente solto o ar dos pulmões, como se tivesse nadado e não andado até aqui. Mercúrio em Touro, Sol e Plutão em trígono. Tudo está bem de novo.
Daniella Leal